• Fernando Couto de Magalhães

As etapas da Globalização. Da dispersão dos sapiens da África à era da tecnologia moderna

Recentemente tive a alegria de participar do programa online da SDG Academy, Globalization - Past and Future com o professor Jeffrey Sachs da Universidade de Columbia nos EUA. O programa de 6 semanas apresentou uma visão muito interessante da globalização e da nossa própria história como espécie. Portanto, gostaria de compartilhar alguns dos conhecimentos e assuntos debatidos ao percorrer do curso.


Para alguns historiadores e economistas a globalização não é um fenômeno recente, mas sim algo que está presente e se desenvolvendo desde de a dispersão do Homo sapiens para fora do continente americano. O que temos certeza é que a essência da globalização é a migração. Como espécie somos interdependentes. Precisamos uns dos outros para sobreviver e evoluir biológica e socialmente. Os seres-humanos podem ser muito fracos como indivíduos, porém muito fortes e com grande capacidade construtiva e destrutiva como grupo.


Segundo Sachs, há seis grandes ondas da globalização ao longo da história humana:


1- A grande dispersão do Homo sapiens do continente africano;

2- Evolução do neolítico - Coletores nômades se tornam fazendeiros sedentários;

3- O surgimento e ascensão dos grandes impérios;

4- As grandes navegações e a 'descoberta' do Novo Mundo;

5- Industrialismo anglo-americano;

6- Era tecnológica moderna.


Na primeira etapa da globalização iniciada a mais ou menos 200 mil anos, o ser humano se tornou global. A espécie chegou na Eurásia há 100 mil anos se espalhando para todas as direções. Há 50 mil anos conquistou o continente australiano e há 15 mil anos atravessou o estreito de bering, chegando nas Américas devido ao baixo nível do oceano com o fim da era glacial. Há quem diga que o humano pré-histórico vivia em harmonia com a natureza, no entanto as teorias mais aceitas mostram um ser humano muito diferente. A chegada do Homo sapiens na Austrália coincidiu com a extinção em massa da megafauna australiana há 50 mil anos, o mesmo aconteceu com a chegada do Homo sapiens nas Américas há 15 mil anos. 90% das grandes espécies de grandes mamíferos desapareceu com a chegada dos seres humanos. Os próprios cavalos nativos da América foram extintos há 10 mil anos e importados pelos Europeus há poucos séculos atrás. Também há a teoria de que o próprio Homo sapiens causou a extinção das outras espécies humanas como o homem de neandertal e o Homo erectus (entre outras).


A partir do período Neolítico da história humana, a espécie começou a abandonar o nomadismo para se fixar em seus próprios terrenos. Os seres humanos deixaram de ser caçadores coletores para se tornarem fazendeiros sedentários. Nesse momento temos a segunda etapa da globalização. A agricultura e suas tecnologias são inventadas, observadas, imitadas e migradas para outras regiões. O interessante dessa fase é que a agricultura começou a se desenvolver em diferentes regiões do mundo completamente isoladas uma das outras. Isso se deve ao clima mais ameno do fim da era glacial. A partir deste momento começa a se estabelecer mercados de troca entre vilas e agricultores.


O crescimento dessas vilas e comunidades em regiões que a prática da agricultura era mais favorável devido ao clima, levou ao surgimento dos grandes impérios egípcios, romanos, persas, indianos e chineses. Esse fenômeno marca a terceira onda da globalização. Temos um mercado global (para o conceito de mundo da época) com a interligação dos impérios por estradas.


Nessa fase da globalização, a Eurásia foi o principal local das grandes inovações tecnológicas e casa de mais de 3/4 da população humana do mundo. A Eurásia é definida pela grande área continua de terra entre Europa e Ásia, abrigando uma gigantesca diversidade natural, climática e cultural. Mais ao sul dessa grande massa de terra, temos o que é chamada as Lucky Latitudes. Uma extensão horizontal de terra com um clima mais equilibrado que sustentou as maiores invenções e produções agrícolas da história.


A região demarcada pela linha vermelha é conhecida como as Lucky Latitudes. O clima não é quente a ponto de facilitar a transmissão de doenças e epidemias, e nem tão frias a ponto de prejudicar as produções agrícolas e o cuidado de animais domésticos. É uma região também definida pelo uso de cavalos como principal meio de transporte. É nessa região que acontece um grande intercâmbio cultural e intercomunicação entre impérios distantes como China e Roma.


Essas latitudes justificam o motivo pelo qual os impérios se expandiram horizontalmente seguindo uma orientação ecológica. Se observarmos o mapa do império romano, conseguimos ver a orientação horizontal dentro dos limites das Lucky Latitudes. O clima mediterrâneo com temperaturas equilibradas permitiu o cultivo de trigo, azeite de oliva e vinho. Acima do império romano fazia muito frio, da mesma forma que abaixo fazia muito calor. Sem ter conhecimento, as conquistas de Alexandre o Grande seguiram orientações ecológicas.

O mesmo aconteceu com o grande império Chinês. A sua orientação leste-oeste com clima subtropical temperado com muitos rios e uma agricultura distinta com grande produção de arroz. No mapa a seguir é possível observar em vermelho o império romano e em amarelo o império chinês.


O professor Sachs faz a seguinte provocação: A inovação foi levada de leste para oeste ou de oeste para leste? Durante a era dos grandes impérios, muitas inovações tecnológicas foram levadas de leste para o oeste. Muitas delas desenvolvidas durante o império chinês e apenas aprimoradas pelos impérios europeus. Papel, impressão, porcelana, pólvora etc. Essas importações levaram à uma ascensão da Europa que seria posteriormente definida pelas grandes navegações.


Entre 1400 e 1800 d.C. a humanidade entraria numa nova e definitiva etapa da globalização. Muitos historiadores acreditam que essa etapa foi o verdadeiro início da globalização - as grandes navegações. Foi nesse momento que a Europa assumiu a sua soberania pelo aprimoramento das tecnologias marítimas. A china por sua vez abandonou a produção de suas voyagers e manteve o seu foco principal nos invasores por terra.


Colombo e Vasco da Game foram grandes nomes dessa grande etapa da globalização que interligou o mundo pela primeira vez após a grande dispersão do Homo sapiens da África. No entanto, foi a etapa de maior brutalidade e violência da história. Segundo Adam Smith (1723-1790), o suposto descobrimento das Américas e a passagem para as Índias pelo cabo da boa esperança foram os principais e mais importantes eventos da história da humanidade, mas ao mesmo tempo um processo de desumanização.


As explorações europeias tiveram grandes impactos e consequências que refletem até hoje socialmente e economicamente. A vantagem da soberania europeia também se dá devido ao caráter extremamente violento das suas sociedades imperiais. A pólvora trazida da China foi aprimorada e levada novamente para o leste com maior poder de fogo.


É nessa etapa da globalização que se define um mercado mundial pela importação e exportação de especiarias. Cana de açúcar, café, milho, batata, cacau, tabaco etc. As chamadas adictive crops. Início do capitalismo moderno. Explorador e brutal.


A globalização passa a ser benéfico apenas para um lado e miséria e brutalidade para o conquistado. No Império Asteca no México, os nativos foram quase levados a completa extinção após a chegada do colonizador europeu. Mesmo em maior número, os astecas foram dominados pelas doenças carregadas pelos europeus. Epidemias que encontraram povos virgens e sem imunidade, levando a um completo massacre da população. Em 1518 acredita-se que o Império Asteca possuía mais de 25 milhões de pessoas, em 1593 a população era de apenas 2 milhões.


A África também se tornou uma grande vítima dessa etapa da globalização capitalista. O tráfico de humanos se tornou um dos maiores mercados da época, gerando o mercado triangulas como é chamado pelo professor. Tecidos, rum e outros produtos manufaturados eram levados para a Europa como pagamento pelos escravos, eles eram então levados em condições desumanas para as Américas. Os escravos trabalhavam gerando açucar, tabaco, algodão entre outras especiarias que retornavam para a Europa, eram usadas para produzir mais produtos manufaturados e levados novamente para a África. Estima-se que mais de 14 milhões de pessoas foram tiradas da África para trabalho o escravo.



Os escravos africanos que desembarcaram nos portos das Américas, geraram gerações de outros humanos subjugados ao trabalho escravo. 40% dos escravos trazidos para as Américas, desembarcaram nos portos brasileiros. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão em 1888 pela lei Áurea. O grande abismo social nas grandes metrópoles brasileiras e as favelas são reflexo da terrível exploração dos seres humanos no continente durante o período colonial.


A quinta onda de globalização é definida como a Era Industrial. Um grande impulsionador para essa nova era pode ser datado em 1776 com Boulton e Watt e a invenção do motor a vapor. A invenção merece ênfase na revolução industrial por inúmeros fatores. O motor a vapor primeiramente nos liberou do transporte dependente de animais e força humana. A partir desse momento o mundo começou a ficar mais rico e a relativamente sair da pobreza. Quanto mais rico o mundo ficava, mais populoso ele se tornava. Inovações que antes levavam séculos para aparecerem agora começavam a se desenvolverem sozinhas. As ondas de Kondratiev (1892-1938) mostram como novas grandes tecnologias surgiam a cada 40 ou 50 anos. Tecnologia passa a gerar tecnologia. Tecnologia gera mercado que motiva inventores que criam novas tecnologias. Dessa forma o ciclo se reinicia.


A invenção do motor a vapor trouxe também os direitos de propriedade intelectual. A invenção de Watt não era apenas um conceito, mas um mercado. Empreendedores investiam nos motores a vapor, o carvão se transformou num grande mercado e o império britânico começou a se tornar o centro do mundo moderno.


A dispersão da industrialização ocorre de duas maneiras. Primeiro na Europa nos países ao redor da Inglaterra e em suas colônias (Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia). Em segundo, a industrialização se espalha em regiões com climas similares às zonas temperadas como Uruguai, Argentina.


Todo o restante dos países do mundo teve que esperar muito tempo até alcançar a era industrial, alguns até o século XX e XXI. Japão foi uma exceção. A sua industrialização foi independente e revolucionária para não ser subjugado pelo imperialismo britânico. A restauração Meiji, como é chamada, tirou o Japão do feudalismo e o transformou na potencia tecnológica que conhecemos hoje.


Esse mercado imperialista cria uma própria barreira no desenvolvimento independente dos países subjugados. Estes, perdem a oportunidade de investir em educação, construção de habilidades e conhecimentos e promoções da indústria para competir com as potências maiores.


COLONIZAÇÃO DA ÁFRICA


A África praticamente não era colonizada até 1800. Isso se deve à uma barreira natural contra os invasores europeus, as epidemias. Em particular a malária. Os povos nativos da África já tinham imunidade natural, as crianças morriam muito cedo quando infectadas e as que sobreviviam se tornavam adultas e se reproduziam, passando os seus genes mais resistentes adiante. Os Europeus não possuíam esse tipo de imunidade e a morte era praticamente certa ao explorar o continente. Um século depois todo o continente africano era colônia européia, com pouquíssimas exceções. Com as explorações europeias no continente sul-americano, foi descoberta uma planta com propriedades químicas que protegiam o indivíduo da malária. Esse foi o primeiro passo para a completa colonização do continente africano. Em 1884 acontece a conferência de Berlim e diplomatas europeus dividiram a África em colônias. Não há um único representante africano na conferência. A colonização foi marcada por enorme brutalidade e violência. Novamente mostrando que a globalização beneficiaria apenas um lado.

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