De Gilgamesh, Noé, Macunaíma e outros mitos do dilúvio.

Atualizado: 10 de set.

Segundo os antropólogos, existem mais de 270 narrativas a respeito de um dilúvio destruidor. Curiosamente, todas essas narrativas contam uma história de origem das civilizações as quais se tratam. Os mitos apresentam a seguinte característica em comum: Divindades resolvem destruir a humanidade como uma forma de punição. Para isso, escolhem um herói para resgatar os animais e garantir a sobrevivência das espécies. De todos esses mitos, o mais popular e dominante é a passagem judaico-cristã da Arca de Noé.
Historicamente, as mitologias explicam fenômenos e mistérios do mundo natural ainda não compreendidos pela ciência da época. No livro Uma Breve História do Mundo de Geoffrey Blainey, o autor associa o nascimento dos mitos e do divino como uma necessidade de suprir os medos e os perigos que o homem primitivo sofria. Um papel essencial para a sobrevivência e a evolução humana. Para os historiador Yuval Noah Harari as mitologias surgiram pela revolução cognitiva do ser humano, uma capacidade de criar realidades, principal característica que o distingue dos outros animais. Criando ficções, os seres humanos foram capazes de viver e cooperar em grupos de centenas, milhares e milhões de indivíduos. Entre os mitos mais antigos está o dilúvio.
O mito de Gilgamesh é uma das histórias mais antigas escritas pela humanidade. Muito anterior às lendas judaicas e até mesmo as gregas. O mito data 5 a 6 mil anos no passado e pertence à antiga civilização suméria. No mito, Gilgamesh encontra em sua jornada um velho ancião que revela ter centenas de anos. O velho se chama Utnapashtim e conta a Gilgamesh uma chocante história que viveu nos séculos passados.
Segundo o ancião, a humanidade fazia tanto barulho que os deuses não conseguiam dormir. Enlil, o deus supremo ordenou uma grande inundação para que acabasse com a humanidade e consequentemente, todo o seu barulho. Imediatamente o deus da água Ea, alertou Utnapashtim (o nosso Gandalf sumério) e o mandou construir um barco com a madeira de sua casa.
O barco deveria ser grande o suficiente para levar a semente de todos os seres vivos. Sem questionar o deus da água, Utnapashtim construiu o barco que resistiu ao grande dilúvio durante sete dias e sete noites. Até que finalmente as águas se acalmaram e Utnapashtim foi recompensado com a imortalidade.
A epopeia de Gilgamesh e a Arca de Noé tem inúmeras semelhanças e levantam uma série de questionamentos históricos. No entanto, esses mitos são apenas dois exemplos de uma série de narrativas mitológicas espalhadas pela história da humanidade.
Na mitologia africana, o herói Tumbanot é escolhido por deus para construir uma grande arca para abrigar a sua família e os animais da terra. Assim, salvando-os de um grande dilúvio. Quando as terríveis chuvas pararam, as águas se acalmaram e Tumbanot soltou uma ave para buscar terra.
Na mitologia grega, afim de acabar com a perversidade dos seres humanos, Zeus promoveu um grande dilúvio na terra. O titã Prometeu avisou o seu filho Deucalião sobre o que estava por vir e o ordenou a construir uma grande cesta que o abrigasse ao lado de sua esposa. Juntos, Deucalião e Pirra sobreviveram.
Na mitologia brasileira, o deus Macunaima criou uma grande árvore com todos os frutos. Sigu, o seu filho, cortou a árvore para espalhar as sementes dos seus frutos na terra. Surpreso, Sigu percebeu que a árvore era cheia de água por dentro. Imediatamente, o filho do deus Macunaima levou os animais da terra para uma caverna e fechou a entrada com cera. Após proteger os animais do dilúvio que estava por vir, Sigu se protegeu com as aves numa grande árvore até as águas abaixarem.
Os mitos desempenharam um importante e inquestionável papel na evolução das civilizações, no entanto é necessário cautela na interpretação de narrativas religiosas e mitológicas. São registradas cerca de 4.200 religiões espalhadas pelo mundo. Cada uma com os seus mitos e heróis. O comediante americano e produtor Ricky Gervais faz uma brincadeira com os números: "O ateu não acredita em 4.200 religiões, enquanto o católico não acredita em 4.199. Portanto, estão mais próximos matematicamente do que imaginam."
Até pouco tempo, a ideia predominante entre os antropólogos era de que o mundo viveria uma homogeneização cultural. Ou seja, cada vez mais as civilizações se pareceriam umas com as outras até a humanidade compartilhar de uma única cultura. No entanto, aparece uma nova ideia: o multiculturalismo. Na qual o mundo compartilharia das mais diversas culturas tornando-se mais tolerante ao diferente. No entanto, o crescente nacionalismo em diversos países do mundo e as polêmicas medidas anti-imigração cada vez mais fortes nos fazem questionar até que ponto conseguiremos coexistir com o diferente.
"O multiculturalismo, além de ser uma valorização do diferente, é também um caminho para diminuir os problemas sociais." (Gomes, 2017, p.211).

Fernando Couto de Magalhães (@eufernandocouto) é escritor e artista brasileiro, autor de obras que navegam por diferentes gêneros, transitando pela ficção científica, fantasia e terror, sempre tendo a brasilidade como elemento principal de suas aventuras. É publicitário, com vasta experiência em marketing, com especialização nas humanidades: História, Filosofia e Sociologia, além de estudos complementares nas ciências humanas, que influenciaram diretamente a produção de seus livros. Estreou em 2022 com Instituto Hawkins e as Anomalias do Tempo, seguido por Grande Hotel Brasil em 2023 e Caiman - O Caminho das Águas Doces em 2026 (sua obra mais ambiciosa).
A curiosidade pelo desconhecido é um dos principais elementos que conecta suas narrativas, além de sempre estruturar-se em elementos da brasilidade, seus folclores e tradições populares. Paralelamente à literatura, desenvolve obras de arte com lápis grafite e carvão, tendo participado de exposições artísticas, incluindo o Brazilian Day Orlando.

Aventura de ficção científica que explora diferentes eras e criaturas pré-históricas em diferentes países.

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Suspense e terror num paradisíaco hotel no nordeste brasileiro, repleto de mistérios e criaturas do folclore brasileiro.




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