Hipupiara, a Mãe D'água / nossa sereia assustadora - Folclore Brasileiro - CAIMAN WIKI
- Fernando Couto de Magalhães

- 21 de jan.
- 4 min de leitura

Definição e natureza
A Hipupiara é uma criatura do nosso folclore brasileiro descrita como um monstro aquático antropomórfico (sob uma forma humana ou com atributos humanos), associada a rios, lagos e regiões costeiras. O termo aparece nos primeiros relatos coloniais sobre o Brasil, sendo usado para designar seres perigosos, que atacariam humanos e animais próximos à água. Frequentemente comparada a demônios ou bestas marinhas, a Hipupiara ocupa um espaço simbólico entre indígenas e europeus.
Imagem 1: O monstro Ipupiara - Gândavo História da Província de Santa Cruz, 1576.
Imagem 2: O Ipupiara segundo Valentin Stansel
Etimologia
O nome Hipupiara tem origem na língua tupi. A interpretação mais aceita deriva da junção de ’y (água, rio) e pû’pîara ou upîara (ser, habitante), podendo ser traduzida como “habitante das águas” ou “ser aquático”. Em muitos registros coloniais, o termo foi grafado de diversas formas, como hipupiaras, ipupiara ou yppupiara, refletindo a tentativa dos cronistas portugueses de transcrever foneticamente o tupi.
Aparência e descrições físicas
As descrições da Hipupiara variam conforme a fonte e a região do relato, mas geralmente apresentam características bem comuns:
Corpo híbrido, misturando traços humanos e animais
Pele escura ou enegrecida, por vezes descrita como escamosa
Boca grande, dentes afiados
Olhos grandes, brilhantes ou profundos
Unhas ou garras longas
De modo geral, uma sereia assustadora
Alguns relatos descrevem a criatura como parcialmente semelhante a um homem ou mulher, enquanto outros a aproximam mais de focas, peixes ou seres marinhos gigantes. Essa variação sugere uma fusão entre observações da fauna local e o imaginário mítico.
Comportamento
Segundo as narrativas tradicionais, a Hipupiara habita os rios profundos, mangues, lagoas e áreas costeiras, atacando pescadores, viajantes e banhistas desavisados. A forma como o faz é peculiar e digna de pesadelos: ela arrasta as suas vítimas para a água e devora partes do corpo humano, especialmente as extremidades ou (dependendo da região do relato), genitálias.
Relatos coloniais
Um dos relatos mais famosos aparece na Carta de 1560 de José de Anchieta, que descreve um monstro marinho responsável pela morte de um homem na costa de São Vicente. Anchieta utiliza o termo hipupiara para nomear a criatura, atribuindo-lhe caráter demoníaco segundo a visão cristã da época.
O historiador e cronista português Pero de Magalhães Gandavo descreveu a criatura como tendo "quinze palmos de comprido e semeado de cabelos pelo corpo, e no focinho tinha umas sedas muito grandes como bigodes. Os índios da terra lhe chamam em sua língua Hipupiara, que quer dizer demônio d'água".[2] Ainda segundo o autor, o monstro marinho teria sido morto pelo bandeirante Baltazar Ferreira.[1] WIKIPEDIA
Interpretações antropológicas e sociais
Assim como muitas histórias do folclore em geral, a Hipupiara pode ser interpretada como uma personificação do perigo das águas, das correntezas, da natureza como um todo. Um monstro que funciona como um mecanismo cultural de controle social, afastando pessoas (especialmente crianças), de áreas perigosas. Assim como uma interpretação mítica de encontros com animais reais como focas, leões-marinhos ou grandes peixes que alimentavam o imaginário da época.
ANCHIETA, José de. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Século XVI.
COUTO DE MAGALHÃES, José Vieira. O Selvagem. Rio de Janeiro, 1876.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1954.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. São Paulo: Global, 2002.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
Diário do litoral: Relembre a lenda de Ipupiara, o monstro que aterrorizou a Vila de São Vicente

Hipupiaras em Aruanã
Criatura aquática, habitante dos rios de Aruanã, a Hipupiara possui o corpo alongado, braços esguios com nadadeiras, garras afiadas capazes de perfurar a madeira dos barcos e olhos grandes, redondos e negros. Até a sua aparição para a tripulação da Mandacaru, é tida apenas como mito de pescadores, como narrado pelo capitão Teco. As lendas falam sobre sua força, agilidade na água, mas dão atenção especial à sua mordida extremamente poderosa com a bocarra repleta de dentes afiados.
É uma criatura solitária, mas o seu comportamento em bando assusta a tripulação da Mandacaru, deixando claro que há algo muito estranho acontecendo em Aruanã. Centenas de Hipupiaras cercam a embarcação num ataque coordenado e feroz, quase tirando a vida de sua tripulação. Elas são capazes de saltar das águas para o barco e puxar as pessoas para as águas negras do Rio Ibirá noturno. Deste encontro, Arthur carrega a cicatriz de uma mordida de Hipupiara em seu ombro: uma fileira de dentes afiados e circular.
Para "criar" a imagem da Hipupiara para a saga, o autor buscou inspiração nas ilustrações antigas da criatura, assim como nas descrições dos monstros abissais dos livros do Lovecraft, entre elas: bocarra circular com incontáveis dentes afiados e olhos tão negros e vazios quanto o próprio universo.
Classificação: Entidades guardiãs / elementais / celestiais
A Hipupiara é classificada por Arthur De Cantra como uma besta elemental, ligada diretamente ao elemento da água. Leonora Porto compara a lenda da Hipupiara às sereias do Reino de Cales, mas exalta a diferença entre as mulheres sensuais e o monstro marinho.

O universo de CAIMAN, criado por Fernando Couto de Magalhães, é completamente fictício. Apesar de beber de fontes históricas e referências culturais brasileiras, não há aqui a intenção de representar fielmente nenhum povo, tradição ou evento específico. É uma obra de entretenimento inspirada nas histórias contadas pelos avós do autor.
O folclore brasileiro é o eixo central do universo da Caiman, servindo como base para toda a fantasia que molda a narrativa dos livros. A proposta do autor, Fernando Couto de Magalhães, é fugir dos elementos fantasiosos europeus (dragões, elfos, orcs e etc) e valorizar o imaginário brasileiro de forma explícita, celebrando raízes, influências regionais e a riqueza das tradições orais do Brasil.








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