• Fernando Couto de Magalhães

Nefertiti - A mais bela chegou. Arte no Período de Amarna e visão etnocêntrica da sua história.

Atualizado: 6 de Dez de 2019

O desenho da Nefertiti foi um dos trabalhos que mais me deixou feliz pelo resultado. Foi uma delícia desenhá-lo e investir tantas horas (+- 100) nele. Mas o que me deixou mais satisfeito não foi somente a técnica, o tamanho ou o nível de realismo que eu possa ter alcançado, mas sim o conteúdo.


O quadro teve um objetivo: recriar a aparência da Neferneferuaten Nefertiti segundo a minha leitura das representações artísticas do período de Amarna do Egito antigo. O resultado foi uma bela mulher com traços negros e não europeus como estamos acostumados a ver em filmes, séries e até mesmo (e estranhamente) em documentários. Apesar do desenho ter tido uma ótima e positiva repercussão, muitos me questionaram sobre a aparência dela. O mais curioso é como algumas pessoas aparentam ficar até ofendidas com a minha leitura. Por esses questionamentos eu decidi escrever um pequeno texto com a minha linha de raciocínio.



A mais bela chegou.

Essa é a tradução do nome de Nefertiti, uma das figuras mais misteriosas da história do Egito e do mundo. Nefertiti foi esposa do faraó Akhenaton, nome que se traduz em “aquele que louva Aton”. Juntos, os dois fizeram reformas extremas no Egito por volta de 1300 a.C. Elas tiveram como base a crença no único deus Aton, banindo os rituais de adoração aos antigos e tradicionais deuses egípcios e implantando à força uma das primeiras religiões monoteístas do mundo. Existem poucas evidências sobre o que pode ter acontecido com Nefertiti após a morte de Akhenaton. O seu nome literalmente desaparece dos registros.


Muitos arqueólogos acreditam que ela pode ter assumido o lugar do marido como faraó e mudado o seu nome até que Tutancâmon, seu enteado, tivesse idade suficiente para governar. Muitas das representações e monumentos de Akhenaton apareceram completamente depredados, o que pode ser um sinal da insatisfação da população egípcia sob seu reinado. Já a figura de Nefertiti aparece intacta em diversas representações. Muitas delas sugerem que a rainha, agora faraó e (praticamente) deusa, pode ter reinado sozinha e até ter sido uma governante adorada pelo povo.


Essa foi apenas uma versão extremamente resumida e simplificada da história dessa mulher fantástica. No entanto, praticamente todas as representações modernas da rainha, seja em filmes, documentários, artes conceituais e etc, a mostram como uma mulher branca com traços europeus. Sabemos que o Egito foi uma civilização com muita miscigenação por ser um centro de comércio e muitas (mas muitas) invasões inimigas. Gerações e mais gerações de diferentes etnias viveram sobre solo egípcio, principalmente durante a dinastia ptolomaica (de 300 a 30 a.C.), que originou a famosa Cleópatra. No entanto, estamos falando de uma governante que viveu mais de mil e trezentos anos antes da própria Cleópatra.

Quando falamos sobre Nefertiti e Akhenaton, assim como tantos outros nomes, estamos falando da África há três mil e trezendos anos atrás. Lembrando que o Egito, como província, esteve sob controle do Império Romano apenas em 30 a.C.


Portanto, para fazer o rosto da Nefertiti usei como referência várias representações do período chamado de Amarna e o seu próprio busto que está no museu de Berlim, mas há outro elemento que vale lembrar. Durante o governo de Nefertiti e Akhenaton, todas as representações artísticas eram distorcidas, com pescoços alongados e crânios compridos, o que levou muita gente a criar teorias conspiratórias associando-os com alienígenas. Por isso, como artista, não posso considerar o busto como uma única representação realista. Veja alguns exemplos de representações deste período.



A arte deste período é muito marcada pela sua singularidade. O faraó não é representado com formas musculosas e onipotentes, e sim com a barriga projetada para frente, braços finos e traços alongados. É interessante observar que muitas dessas características, principalmente entre lábios, nariz e queixo, mostram claros traços africanos, como podemos ver nas representações abaixo.



Outra característica da cultura egípcia antiga que vale ressaltar, é o casamento e relações por incesto (entre familiares) dentro das famílias reais. Esse hábito tinha o objetivo de preservar a linhagem “pura”, o que dificultava a diversidade genética e a própria miscigenação dentro das famílias reais. Isso sem falar no fator biológico de uma civilização hipoteticamente branca vivendo no deserto há mais de 3000 anos. Isso não daria muito certo, afinal a pele branca é mais adaptada ao frio e a baixa intensidade de luz solar, diferente da pele negra.


Segundo o antropólogo e historiador Cheikh Anta Diop, havia inclusive uma palavra utilizada pelos egípcios para designar o EU como raça ou cor. A palavra KMT, traduzida como "os negros" (plural). A palavra é representada com um hieróglifo de um pedaço de madeira com a ponta carbonizada.


Mas por que se tem "tanta certeza" de que os egípcios antigos eram brancos? Posso tentar dar uma resposta para essa pergunta pela colonização da própria história do colonizado e a construção de uma memória coletiva por "produtos do entretenimento". Como por exemplo, a visão etnocêntrica da própria indústria do cinema norte americano. As pessoas conhecem o Egito através desses produtos e dificilmente através de livros, artigos e palestras de historiadores e egiptólogos (que ainda assim também apresentam influência dessa visão etnocêntrica).


O filme Êxodos de Ridley Scott merece uma atenção especial sobre essa visão etnocêntrica. O filme foi banido do Egito e várias organizações acusaram o diretor de "colonialismo cinematográfico". A acusação não surge somente do fato dos principais personagens serem brancos, mas dos bandidos, assassinos, escravos e pobres serem negros.



Para concluir, segundo a minha leitura, Nefertiti não poderia ser uma mulher branca com traços europeus, como estamos acostumados a ver, e sim uma mulher negra, alta e magra (características mais claras nas representações), estrategista, confiante e por último e menos importante... bela. Afinal a própria representação da beleza é subjetiva e muito influenciada pela cultura do poder (exemplo de Napoleão).


O retrato da Nefertiti foi feito numa folha canson com 1 metro de altura, lápis Faber Castell 6B e 8B, borracha monozero e pincel para sombreamento do grafite. Foram dois meses dedicados ao desenho com um total de quase 100 horas de trabalho.



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