A Arte dos Hieróglifos

Atualizado: 10 de set.
Quando pensamos no Egito Antigo, uma das primeiras coisas que vêm à nossa cabeça (além das pirâmides, claro) são aqueles símbolos misteriosos gravados nas paredes dos templos e tumbas: os hieróglifos. De modo geral, eram uma criativa forma de escrita usada pelos egípcios para registrar nomes, histórias, acontecimentos, crenças, informações e praticamente tudo aquilo que precisava ser escrito. Assim como hoje usamos uma pequena imagem para transmitir uma ideia ou emoção com nossos emojis 🐱❤️☀️ (uma comparação esdrúxula, eu sei), ou até substituir uma palavra inteira, os egípcios também utilizavam figuras para acrescentar significado ao que estavam escrevendo. A diferença é que o sistema deles era muito mais sofisticado: alguns símbolos representavam sons, outros ideias e outros ajudavam a indicar exatamente o significado de uma palavra. Então, antes de imaginar que os egípcios simplesmente "desenhavam coisas", vale a pena olhar para os hieróglifos como aquilo que realmente eram: um complexo sistema de escrita que também era uma verdadeira obra de arte.
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A língua egípcia é composta por dois elementos. Os fonogramas, que conseguimos pronunciar, e os ideogramas, que possuem valores visuais. Exemplos de fonogramas que funcionam como letras e sons:

Exemplos de ideogramas: Símbolos com valores puramente visuais. Um olho chorando, um homem velho com um cajado, uma espécie de templo e o sol entre dois montes.

Os textos são formados pela união dos fonogramas com os ideogramas de uma forma relativamente simples e até divertida. Para escrever a palavra GATO, utilizamos os glifos referentes às letras que formam a palavra G-A-T-O e unimos com o ideograma que representa a figura de um gato. Por exemplo:
G + A + T + O + (figura de um gato)
O uso dos ideogramas no final da palavra é muito importante, pois se há uma palavra idêntica a GATO, mas com um significado totalmente diferente, é o ideograma que vai identificar a palavra. Digamos que CACHORRO seja escrito da mesma forma que GATO:
G+A+T+O+(figura de um gato)
G+A+T+O+(figura de um cachorro)
Os ideogramas também ajudam a identificar onde começa e onde termina uma palavra, afinal não há pontuação, vírgulas e ponto final. Abaixo temos a palavra egípcia KHERED que significa CRIANÇA. Os fonogramas da esquerda possuem os sons de H, R, D respectivamente. A seguir é utilizado o ideograma de uma criança chupando o dedo para representar visualmente a palavra KHERED.

Muitos desses fonogramas possuem um som, ou letra. Por exemplo uma coruja é sempre a letra M, um pé é sempre a letra B e etc. No entanto, há tipos de hieroglifos chamados bilaterais que possuem duas consoantes no seu significado, como uma planta que representa as consoantes SW (pronuncia-se "su"). Também há hieróglifos trilaterais, que possuem três letras, como o famoso hieróglifo do BESOURO que carrega as letras H,P,R. Mas essa parte já fica complexa demais, então vamos voltar para a formação básica das palavras, dessa vez dentro de uma sentença.
Em português, assim como em outros idiomas, montamos uma sentença por sujeito, verbo e objeto. No egípcio antigo, o verbo aparece primeiro, seguido pelo sujeito e objeto. Abaixo temos a frase A CRIANÇA VIU AS PESSOAS (plural), e o mais interessante é que conseguimos identificar a frase, mesmo sem compreender os fonogramas.

Nomes seguem a mesma regra que vimos até agora. Normalmente escritos com hieróglifos e acompanhados pela figura de um homem ou uma mulher. Na imagem abaixo conseguimos ver uma placa de entrada de uma tumba ou templo dedicada a Nefer. Mas há apenas a palavra com o nome de Nefer, mas não há um ideograma de um homem no lado direito dos hieróglifos. Mas observe bem, a palavra está ao lado da figura de um grande homem, criando uma relação basicamente artística entre os dois. Sabemos que aquele é o nome do grande homem. Ele é representado artisticamente, como uma pintura ou uma escultura que está na porta da tumba para te receber e ao mesmo tempo serve como ideograma da palavra NEFER.

A identificação dos números em egípcio é relativamente simples, similar à dos números romanos (imagem abaixo). De 1 a 9 se utilizam linhas. 8 linhas representa o número 8. Quando chegamos no número 10 utilizamos esta figura que parece a letra U de ponta cabeça. A linha curvada representa o número 100, a figura parecida com uma planta o número 1.000, o dedo o número 10.000, o animal parecido com um sapo, ou girino o número 100.000, e o homem ajoelhado que representa o deus Heh da eternidade, o número 1 milhão. Não é interessante?

Com essas informações já conseguimos identificar os números nos textos egípcios.

A simetria também é muito importante na escrita egípcia, ela cria harmonização, torna o texto mais fácil de ler, mais elegante e artístico. Muitas vezes trocam-se a posição das "letras" apenas para colocá-las de forma balanceada visualmente, o que é muito interessante.

Da próxima vez que você passar por um museu ou uma exposição e encontrar uma parede coberta de hieróglifos, pare por alguns minutos e tente decifrá-la. Procure os fonogramas, identifique os ideogramas, veja se consegue encontrar nomes, números e até perceber onde uma palavra começa e termina. Você vai descobrir que aquilo que antes parecia um conjunto indecifrável de desenhos começa, aos poucos, a fazer sentido. É quase como aprender a reconhecer uma nova linguagem visual, só que com milhares de anos de história por trás de cada símbolo. É divertido, é conhecimento, é cultura, é arte, é história.

Fernando Couto de Magalhães (@eufernandocouto) é escritor e artista brasileiro, autor de obras que navegam por diferentes gêneros, transitando pela ficção científica, fantasia e terror, sempre tendo a brasilidade como elemento principal de suas aventuras. É publicitário, com vasta experiência em marketing, com especialização nas humanidades: História, Filosofia e Sociologia, além de estudos complementares nas ciências humanas, que influenciaram diretamente a produção de seus livros. Estreou em 2022 com Instituto Hawkins e as Anomalias do Tempo, seguido por Grande Hotel Brasil em 2023 e Caiman - O Caminho das Águas Doces em 2026 (sua obra mais ambiciosa).
A curiosidade pelo desconhecido é um dos principais elementos que conecta suas narrativas, além de sempre estruturar-se em elementos da brasilidade, seus folclores e tradições populares. Paralelamente à literatura, desenvolve obras de arte com lápis grafite e carvão, tendo participado de exposições artísticas, incluindo o Brazilian Day Orlando.

Aventura de ficção científica que explora diferentes eras e criaturas pré-históricas em diferentes países.

Aventura de alta fantasia num universo próprio, inspirado no Brasil colonial e no folclore brasileiro.

Suspense e terror num paradisíaco hotel no nordeste brasileiro, repleto de mistérios e criaturas do folclore brasileiro.




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