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Confúcio e a difícil arte de viver em sociedade - Filosofadas aleatórias #1

Foto do escritor: Fernando Couto de Magalhães
Fernando Couto de Magalhães
há 3 horas
5 min de leitura
Imagem de Confúcio - a difícil arte de viver em sociedade

Moro em São Paulo! E, para quem vive aqui, não preciso explicar o que isso significa: caos. Milhões de pessoas vivendo umas sobre as outras, prédios cada vez mais altos, apartamentos cada vez mais próximos uns dos outros, vias barulhentas e uma quantidade praticamente infinita de estímulos. O trânsito tem sido uma constante e uma das principais fontes do meu estresse como paulistano. Dentro do caótico cenário dessa megalópole é possível perceber uma verdade simples: estamos ficando cada vez mais individualistas.


Neste contexto, costumo buscar apoio em textos filosóficos antigos, não apenas por fazer parte da minha formação, mas pelo prazer de me acomodar entre as palavras de quem viveu há muito, muito tempo. Se você é um leitor de clássicos, sabe do que estou falando.


Fugindo um pouco dos pensadores ocidentais, Confúcio tem feito parte do meu cotidiano de leituras e, quanto mais leio a seu respeito, mais percebo que as questões que ele levantava continuam extremamente atuais. Embora tenha vivido na China há mais de dois mil anos, suas ideias são atemporais.


Para Confúcio, uma transformação da sociedade começa pelo indivíduo, mas não termina nele. O ser humano, o cidadão, precisa praticar o autocultivo e, desta forma, através da educação e busca pelo conhecimento, desenvolver o caráter para a vida em sociedade.


Há três virtudes importantes aqui, que aparecem juntas na tradição confuciana: Coragem (勇 yǒng), Sabedoria (智 zhì) e Benevolência (仁 rén). "“Os sábios não se confundem; os benevolentes não se afligem; os corajosos não temem.” 知者不惑,仁者不忧,勇者不惧. Essas três virtudes precisam caminhar juntas, pois o benevolente sem sabedoria é um tolo e o corajoso sem benevolência e sabedoria pode ser um rude, uma pessoa ruim. A benevolência orienta a relação com o próximo, a sabedoria orienta o julgamento e a ação e a coragem permite agir.


O indivíduo não existe isoladamente, pois faz parte de uma família, de uma comunidade e de um Estado. Uma noção que não parece fazer parte do pensamento moderno, numa sociedade marcada pela individualidade, pela pressa e pelo consumo. Essas três características, às quais associo abertamente ao contexto paulistano, costumam ser justificadas por uma palavrinha muito importante no mundo ocidental: a liberdade.


Não preciso dizer que enxergamos a liberdade como algo essencialmente positivo, claro. Liberdade para ir e vir, crer ou não crer e viver de acordo com os próprios princípios individuais. É um valor fundamental, evidentemente e, claro, em sua ausência há opressão, violência e autoritarismo. Porém, aprendi que também tenho a liberdade (felizmente) de criticar conceitos intocáveis, como a própria liberdade e entendo que o excesso dela também pode produzir problemas, caos. Principalmente quando ela é apenas entendida como a possibilidade de fazer o que queremos na hora que queremos. Afinal, a liberdade tem limite e ele está na liberdade do próximo. O indivíduo, por ser livre, precisa considerar o impacto de suas liberdades sobre os demais.


Pensemos que um indivíduo tem liberdade de ouvir a música que quiser, assim como eu ou você. O problema começa quando a música do vizinho extrapola os limites da convivência. Ele tem a liberdade de ouvi-la, mas tenho a liberdade de trabalhar em silêncio, ou ler, ou assistir televisão, ou dormir. Ou, simplesmente, eu não goste daquela música. Então, neste exemplo banal, surge uma máxima conhecida de Confúcio: “Não faças aos outros o que não desejas para ti”. Uma ideia bem relacionada à benevolência.


Porém, ao pé da letra, essa frase pode parecer preguiçosa, pois falta ação. Se não faço ao outro o que não desejo para mim, basta ficar fora do caminho do outro. O que não é o caso. Não basta, porém, limitar a benevolência a não fazer o mal. Na tradição confuciana, existe também uma dimensão muito mais ativa: a disposição de desejar e promover o bem do outro. “Não vou incomodar o meu vizinho” não basta, pois vou além e desejo que meu vizinho também tenha uma boa tarde de descanso ou trabalho.


A minha liberdade continua existindo, o que muda é a forma como me relaciono com ela. Liberdade com responsabilidade!


Para Confúcio, a sociedade não é construída por grandes decisões políticas ou governantes poderosos, mas nos pequenos atos e ritos de etiqueta e conduta apropriada que nos ensinam a considerar o outro. Como nos comportamos durante uma refeição; como cumprimentamos os vizinhos nas áreas comuns do condomínio; como nos comportamos no trânsito; como tratamos nossos pais e os mais velhos. Se compreendêssemos essas pequenas coisas, não necessitaríamos de tantas leis e regras.


Voltamos ao caso do vizinho que ouve música alta: Há o consenso do silêncio às 22h00, o que não se aplica ao vizinho que ouve a música às 15h00. Então precisamos buscar mais leis e regras: ABNT NBR 10.151 que calcula o volume do som em tantos decibéis; O Código Civil (Art. 1.277) que garante a saúde e paz dos vizinhos a qualquer hora do dia; A Perturbação do Sossego na Lei das Contravenções Penais (Art. 42) que coíbe abuso sonoro, e assim por diante. Poderíamos fazer uma longa lista de regras, porém, se o vizinho fosse alguém benevolente, não precisaríamos de tantas leis para este caso tão específico e cotidiano.


As leis são necessárias, é claro. Mas existe uma diferença enorme entre não fazer algo porque é proibido por lei (controle), e não fazer algo por que se compreende que aquilo poderia prejudicar outra pessoa (autocultivo). Aqui entendemos a importância que Confúcio dá para a educação. O que nos leva para outro ponto: seria a educação hoje focada em gerar pessoas produtivas para o mercado e não alguém que sabe se portar com os outros? Tudo parece ter uma finalidade prática: tirar boas notas, entrar numa boa universidade, conseguir um bom emprego e ser um cidadão produtivo. Mas, dentro deste contexto de produção, onde fica o tempo para discutir virtude, se perguntar “como devo viver em sociedade” para além de leis e gregas? Não, não temos tempo para isso!


Um breve resumo:


Confúcio é o nome "latinizado" de Kong Qiu, que nasceu em 551 a.C. Foi um pensador, professor, conselheiro político e filósofo chinês durante um período de grande instabilidade política. Uma das figuras mais importantes do pensamento chinês, que passou parte da vida ensinando e procurando convencer governantes de que uma sociedade estável dependia menos da força e mais da educação e do bom exemplo dos seus líderes. Assim como Sócrates, teve seus ensinamentos preservados e transmitidos por seus discípulos e seguidores, principalmente nos Analectos, compilados ao longo de gerações posteriores. A sua filosofia se tornou uma das principais bases intelectuais, éticas e políticas da China por mais de dois mil anos.



Fernando Couto de Magalhães lê um livro de capa laranja numa biblioteca aconchegante, com texto visível na capa.

Fernando Couto de Magalhães (@eufernandocouto) é escritor e artista brasileiro, autor de obras que navegam por diferentes gêneros, transitando pela ficção científica, fantasia e terror, sempre tendo a brasilidade como elemento principal de suas aventuras. É publicitário, com vasta experiência em marketing, com especialização nas humanidades: História, Filosofia e Sociologia, além de estudos complementares nas ciências humanas, que influenciaram diretamente a produção de seus livros. Estreou em 2022 com Instituto Hawkins e as Anomalias do Tempo, seguido por Grande Hotel Brasil em 2023 e Caiman - O Caminho das Águas Doces em 2026 (sua obra mais ambiciosa).

 

A curiosidade pelo desconhecido é um dos principais elementos que conecta suas narrativas, além de sempre estruturar-se em elementos da brasilidade, seus folclores e tradições populares. Paralelamente à literatura, desenvolve obras de arte com lápis grafite e carvão, tendo participado de exposições artísticas, incluindo o Brazilian Day Orlando.



Aventura de ficção científica que explora diferentes eras e criaturas pré-históricas em diferentes países.



Aventura de alta fantasia num universo próprio, inspirado no Brasil colonial e no folclore brasileiro.



Suspense e terror num paradisíaco hotel no nordeste brasileiro, repleto de mistérios e criaturas do folclore brasileiro.



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