Por que precisamos ir para a academia? / Esforço + Recompensa


"Quero ter o Shape!"
Por que precisamos ir para a academia? Para alguns, ou melhor, muitos, a resposta pode ser previsível: por que temos que ir! Outros diriam que vão para a academia para ter o "shape" em dia, para emagrecer ou por que o médico deu uma bronca ao ver os exames. Acho muito difícil que alguém responda que treina por que é um mecanismo cultural para suprir uma carência evolutiva por movimentos na vida moderna. A não ser que você pergunte para um antropólogo que não bata muito bem da cabeça!
Eu gosto da musculação e frequento a academia. Os meus treinos são divididos nos cinco dias da semana, incluindo treino de força, cardio e um pouco de alongamento (algo que deveria me dedicar mais). O que me motiva são as provas de obstáculos que realizo ao longo do ano, uma estranha paixão! Ter uma nutricionista dentro de casa também me ajuda com a alimentação e hidratação, mantendo certa disciplina durante a semana e um pequeno alívio nas regras aos sábados e domingos. Juntos, conquistamos o primeiro lugar na competição de levantamento de peso de casais no pequeno clube que frequentamos. Claro que tudo não passou de uma diversão de final de semana, mas as medalhas estão orgulhosamente expostas na nossa estante.
Em outras palavras, é um estilo de vida!

Viagem no tempo
Se analisarmos essa pergunta (por que vamos à academia?) de uma perspectiva histórica e evolutiva, ela se torna muito mais interessante e curiosa. O que nos levará por uma distante viagem no tempo para buscar essa resposta. Portanto, calce suas botas, prepare sua máquina fotográfica e vamos atravessar este portal (como se fôssemos os cientistas aventureiros do Instituto Hawkins).
Durante a maior parte da história da evolução humana, não existia uma separação tão clara (quanto hoje) entre atividade física e cotidiana. Os Sapiens, assim como outras espécies humanas que habitaram o planeta, não precisavam reservar uma hora do dia para fazer exercício, dar dez voltas ao redor da aldeia ou fazer supino reto com pedras pesadas. Isso requer energia e não podíamos nos dar ao luxo de perder energia deste jeito. Os humanos precisavam se movimentar para caçar, coletar frutas, raízes e castanhas, transportar os seus recursos, construir abrigos, lutar contra predadores entre tantas outras atividades "físicas". A vida sempre foi perigosa, e muito!
Portanto, a palavra-chave deste texto, fundamental para compreender a nossa necessidade por atividade física, é sobrevivência! Uma relação que foi profundamente transformada em grande parte das sociedades humanas modernas.
Um organismo construído para o movimento
O ser humano é um ser social, isso já sabemos, mas um ser social moldado para o movimento. Ele precisa se movimentar, principalmente quando há uma recompensa (caço e me alimento, por exemplo), mas o corpo possui uma grande capacidade de adaptação e responde continuamente ao ambiente em que está inserido. Se você está confortável, seguro, no sofá da sua casa assistindo Netflix e pensa "preciso ir na academia", o seu corpo responde "pra quê?". Esta é a fisiologia humana construída ao longo de uma extensa história evolutiva. Academias, treinos e dietas para perder a barriga surgiram basicamente ontem na História (com a H maiúsculo).
Durante centenas de milhares de anos, nossos ancestrais viveram em ambientes nos quais conseguir alimento exigia grande e contínuo esforço físico. Escalar, correr, pular, carregar, fazia parte da vida cotidiana. Claro que não eram exercícios planejados com o objetivo de melhorar a saúde ou ficar mais forte. Eram atividades com uma simples e concreta finalidade: sobreviver (lembra da palavra-chave?).

Daniel Lieberman, de Harvard, tem um importante trabalho de estudo nesta área e suas pesquisas explicam bem por que é tão difícil se comprometer com a academia. No livro Exercised, ele faz uma distinção muito interessante entre a atividade física e o que chamamos de exercício físico.
O exercício físico moderno é aquela atividade física realizada deliberadamente, pois outras atividades da vida cotidiana já não proporcionam o movimento suficiente que o nosso corpo necessita. Nossos ancestrais não precisavam pensar que deveriam caminhar para manter a saúde ou perder a barriguinha (se é que conseguiam acumular uma barriguinha), pois a própria necessidade de obter recursos fazia com que eles se movimentassem. A necessidade pela sobrevivência se transformou com a vida moderna e hoje sobreviver pode significar trabalhar horas e horas sentado na frente de um computador e, nos momentos de lazer, passar mais horas e horas maratonando uma série comendo aquele Mcdonald's que chegou em dez minutos pelo Ifood.
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Recompensa imediata, abstrata e futura
A sobrevivência não se tratava apenas no gasto energético, mas também na economia desta energia. Em um ambiente no qual conseguir alimento exige esforço, gastar energia sem uma finalidade clara pode ter um custo alto. Isso não significa que nossos ancestrais fossem naturalmente preguiçosos ou que permanecessem imóveis sempre que possível. Significa que o organismo precisa administrar energia de acordo com as necessidades do ambiente. O gasto energético precisa ser justificado por uma recompensa que seja imediata. Tomemos um caçador como exemplo: Cabelo de Sangue, nome do nosso caçador, deixa a tribo e passa a manhã caçando e retorna para a aldeia com um porco do mato no seu ombro. O gasto energético foi grande, mas a recompensa foi imediata, que fornecerá ainda mais energia para o dia seguinte!
O exercício físico que realizamos na academia não segue essa lógica. Os nossos benefícios não oferecem recompensas imediatas, o que torna a motivação muito mais difícil. Nossas recompensas costumam ser futuras e abstratas. Quando eu gasto energia para superar o meu peso recorde no supino, não recebo um alimento ao terminar a série. Não escapei de um predador. Não conquistei uma caça que estou carregando de volta para a minha tribo.
Preciso compreender racionalmente que aquele esforço possui valor, mesmo que os benefícios sejam abstratos, como superar a si mesmo. Ou distantes, como um aumento da massa muscular após inúmeros meses de dedicação constante. O problema é que o nosso corpo não compreende o que são essas recompensas abstratas e futuras e, por isso, é tão difícil brigar com ele para levantar do sofá e ir treinar.
Industrialização
A transformação dessa relação entre energia e movimento aconteceu gradualmente ao longo de dezenas de milhares de anos. A Revolução Agrícola foi um dos grandes momentos dessa mudança, pois deixamos de ser nômades para nos fixar num único lugar onde plantávamos nossas comidas.
Yuval Noah Harari faz uma provocação bastante conhecida no famoso livro Sapiens ao discutir a agricultura: em vez de simplesmente afirmarmos que o ser humano domesticou plantas como o trigo, podemos imaginar que o trigo também "domesticou" o ser humano. A agricultura favoreceu a permanência em determinados territórios e modificou profundamente a organização das sociedades humanas. A partir daí, diversas transformações ocorreram ao longo de milhares de anos. Surgiram cidades maiores, especialização do trabalho, novas tecnologias, sistemas de transporte e, posteriormente, máquinas capazes de realizar tarefas que antes dependiam diretamente da força humana.
A industrialização dos últimos séculos acelerou, e muito, esse processo de transforção do movimento. O trabalho físico deixou de ser necessário para uma parcela crescente da população. Até que, no século XXI, essa transformação chegou a um nível particularmente interessante e preocupante. Podemos trabalhar durante horas diante de um computador, deslocar-nos de carros, ônibus, metrôs, comprar alimentos em supermercados e pedir uma refeição pelo celular. A sobrevivência tornou-se progressivamente menos dependente do movimento corporal.

Hoje, quase um terço dos adultos do mundo não pratica a atividade física suficiente exigida pelo corpo. Essa é uma análise no The Lancet Global Health que analisou 5,7 milhões de participantes em 163 países, estimando que 31,3% dos adultos com 18 anos ou mais, eram insuficientemente ativos em 2022. Já nos anos 2000, a estimativa era de 23,4%. Já no Brasil, o classificados como fisicamente inativos no tempo livre (segundo dados da PNS 2019), representam 59,5% da população adulta.
Obesidade
A obesidade é uma das consequências mais significativas dessa transformação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022 havia aproximadamente 2,5 bilhões de adultos com sobrepeso no mundo, dos quais mais de 890 milhões viviam com obesidade. A prevalência mundial de obesidade adulta mais que dobrou desde 1990.
O nosso organismo precisa administrar a energia que recebe e a energia que utiliza. Quando o ambiente oferece alimentos muito energéticos de maneira constante e, simultaneamente, reduz a necessidade de atividade física, torna-se mais fácil ocorrer um excedente energético persistente.
O problema ganha importância porque a obesidade está associada a um risco aumentado de diversas doenças, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, osteoartrite e determinados tipos de câncer.
É nesse momento que a discussão sobre sobrevivência retorna. Durante nossa evolução, uma das dificuldades era obter energia suficiente para continuar vivos. No ambiente moderno, para uma parcela da população, o desafio pode ser administrar uma quantidade de energia muito maior do que aquela necessária para as demandas físicas da vida cotidiana.
A academia como solução evolutiva
A academia não é apenas um lugar onde levantamos pesos e contamos as calorias gastas na esteira. Ela representa uma solução cultural para uma transformação ambiental. Criamos uma sociedade na qual determinadas formas de movimento deixaram de ser necessárias e, posteriormente, criamos espaços específicos para reproduzir parte desse movimento de maneira voluntária.
Eu posso entrar em uma academia, escolher uma carga, realizar uma série, descansar, aumentar o peso e registrar minha evolução no aplicativo ou na ficha do meu treino. Nada disso está diretamente relacionado à obtenção do jantar daquela noite. Ou seja, não busco a recompensa imediata que justificará o esfoço. O objetivo é produzir uma adaptação fisiológica que considero importante para minha vida futura.
Nesse sentido, o conhecimento sobre saúde, ou o conhecimento em geral, possui uma função importante. Quando compreendo que o exercício contribui para preservar massa muscular, força, capacidade funcional e saúde metabólica, consigo atribuir uma recompensa futura a uma atividade que não possui uma recompensa imediata.
Não é novidade dizer que a atividade física regular, realizada com constância, está associada a uma vida mais longa e saudável. Uma publicação do British Journal of Sports Medicine de 2025, observou que: pessoas que mantinham níveis consistentes ou crescentes de atividade física apresentavam aproximadamente 20% a 40% menor risco de mortalidade por todas as causas. Incluindo: doenças cardiovasculares, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), câncer de diferentes tipos, doenças respiratórias, diabetes e doenças metabólicas. Doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, infecções como pneumonia e gripe. Até acidentes, lesões em geral. O risco de mortalidade cardiovascular era aproximadamente 30% a 40% menor entre indivíduos consistentemente ativos, em comparação com grupos consistentemente inativos.
Em uma sociedade na qual o movimento deixou de ser uma necessidade constante de sobrevivência, praticar exercícios tornou-se uma maneira consciente de preservar capacidades que continuam fundamentais para a vida humana. E aí, bora treinar?

Fernando Couto de Magalhães (@eufernandocouto) é escritor e artista brasileiro, autor de obras que navegam por diferentes gêneros, transitando pela ficção científica, fantasia e terror, sempre tendo a brasilidade como elemento principal de suas aventuras. É publicitário, com vasta experiência em marketing, com especialização nas humanidades: História, Filosofia e Sociologia, além de estudos complementares nas ciências humanas, que influenciaram diretamente a produção de seus livros. Estreou em 2022 com Instituto Hawkins e as Anomalias do Tempo, seguido por Grande Hotel Brasil em 2023 e Caiman - O Caminho das Águas Doces em 2026 (sua obra mais ambiciosa).
A curiosidade pelo desconhecido é um dos principais elementos que conecta suas narrativas, além de sempre estruturar-se em elementos da brasilidade, seus folclores e tradições populares. Paralelamente à literatura, desenvolve obras de arte com lápis grafite e carvão, tendo participado de exposições artísticas, incluindo o Brazilian Day Orlando.

Aventura de ficção científica que explora diferentes eras e criaturas pré-históricas em diferentes países.

Aventura de alta fantasia num universo próprio, inspirado no Brasil colonial e no folclore brasileiro.

Suspense e terror num paradisíaco hotel no nordeste brasileiro, repleto de mistérios e criaturas do folclore brasileiro.




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